Reforma Íntima - Amor e Sexo


O Espiritismo, ao estabelecer as leis da reencarnação e da evolução, o conceito de espírito como ser completo (as sensações são do espírito: desencarnado ele vive uma vida total, a tal ponto que, às vezes, nem se dá conta de estar no novo estado), altera o sentido consagrado de muitas das noções relativas ao homem e ao existir.


As noções de amor e sexo não lhe fazem exceção. Para que possamos abordá-las, portanto, necessário se faz explicar, inicialmente, quais as alterações de conceituação que se devem considerar.


A — Co-criação


À concepção de Deus criador, o Espiritismo acrescenta a noção de ser co-criador, isto é: a de ser agente, realizador, que atua no meio circundante, sob a égide das leis naturais — expressões da vontade de Deus — para criar formas de duração temporária e desenvolver qualidades para si próprio, que lhe determinam o progresso evolutivo.O ser adquire pensamento contínuo e livre arbítrio ao passar do estágio animal para o estágio hominal. Pela lei da ação e reação se lhe desenvolvem o sentimento e a razão; começa a distinguir as leis da vida e, sua marcha ascensional.


B — Energia e forças criadoras


O sentimento resulta de uma lenta e progressiva metamorfose dos instintos e a razão se desenvolve para o homem qual faculdade para, com base em tal transformação, nortear-lhe a ação. O sentimento determina os motivos de interesse do espírito a se projetarem quais quadros em sua mente e a estabelecerem, em seu derredor, campo de influências.


Pelo pensamento, o espírito permuta energia mental com outras mentes, em regime de sintonia, dela liberando forças que governam a formação das outras formas de energia para ele disponíveis (na alimentação, na respiração, etc.), através dos centros de forças. Os sentimentos e desejos ditam o tipo de energia e de forças que a mente emite em forma de pensamentos e que estabelecem influência sobre o corpo do espírito em seu derredor.


Pois bem! A fim de precisar a linguagem entenderemos, por amor, a totalidade dos sentimentos e desejos que estruturam o pensamento para a liberação de energia e de forças que guiam a ação na produção do bem e possibilitam a aquisição de qualidades, constituintes do crescimento do espírito. À energia e às forças fundamentadas no amor, denominaremos, respectivamente, energia criadora e forças criadoras.


A energia criadora, pelo coronário e pelo centro cerebral, é distribuída aos diversos centros de força: o laríngeo, o cardíaco... (podendo aqui serem denominadas energia laríngea, energia cardíaca, etc...) para reger, em cada um, complexo de funções distintas. Com base nisso, denominaremos de funções sexuais aquelas funções do espírito que regulam a permuta de energia criadora entre seres, quando se associam, em regime de afinidade, para produções em comum, que compreendem, no plano físico, as permutas para a procriação.


À totalidade das funções sexuais, no seu todo psicofísico, denominaremos sexo; e àquela particular energia criadora, destinada a reger o sexo ou as funções sexuais, denominaremos energia sexual. Com isso situamos as noções de energia e força criadora, amor, sexo e energia sexual, em planos bem distintos, com significados bem diferentes dos consagrados entre nós, para conceituá-los (e nisso reside o mais importante do novo significado) como manifestações relacionadas à mais íntima essência do nosso ser: características do espírito, que o corpo apenas materializa.


O sexo, portanto, surge para nós como uma noção que designa um conjunto de características do espírito que podemos também classificar em ativas, constituindo a masculinidade; e passivas, compondo a feminilidade. No consenso comum, masculinidade e feminilidade se referem a distinções de caráter morfológico, restritas ao plano físico; no Espiritismo elas se modificam e seu significado imbui-se de um contexto que transcende estas formas.


O impulso sexual passa também a adquirir concepção que transcende o significado comum: passa a ser entendido como aquela resposta relativa aos estímulos que estabelece a transmudação de energia criadora entre seres. Com estas noções podemos desde já afirmar:
1—O ser evolui e adquire as qualidades que determinam seu crescimento, quando a energia absorvida é regulada, nas suas transformações, pelas manifestações do amor.
2— O ser cria para si processos obsessivos e de regeneração, quando tais transformações são fundamentais em manifestações outras que não as do amor.


É pela permuta de energia criadora que os seres se desenvolvem e adquirem as qualidades de que necessitam, permuta esta que surge quando os seres se associam nas manifestações de afinidades e que já se nota nas atrações magnéticas, nas combinações químicas, nas organizações minerais e vegetais, nos animais com função prevalentemente orgânica.


Na fase humana o ser passa a viver mais no plano astral e as trocas de energia passam a efetuar-se cada vez mais via mental, num processo de transformação que denominaremos, com André Luiz, mentossíntese. Tal qual a energia elétrica fluente num circuito, em função de uma diferença de tensão entre seus terminais, aquece o forno que irá transformar farinha em pão, assim a energia sexual, fundamentada no amor, atua no espírito, desenvolvendo-lhe qualidades, proporcionando-lhe o crescimento.


Por isso dizemos que o Amor é alimento do espírito; por isso dizemos que Deus é Amor — porque nele está a fonte de toda possibilidade benéfica. Nos homens primitivos — menos evoluídos — a energia sexual tem função prevalentemente orgânica e sua veiculação está mais vinculada ao concurso dos sentidos. Nos mais evoluídos ela passa a ter função cada vez mais dirigida ao desenvolvimento do espírito; sua veiculação tende a efetuar-se cada vez mais nos processos da mentossíntese, com concurso sempre decrescente dos sentidos.


A marcha evolutiva do homem é também marcha para a conquista da mentossíntese, em cujas expressões o amor forja a grandeza do espírito. Assim, o amor:
— pelo ensino cria a confiança;
— pelo perdão favorece a amizade;
— pela tolerância estabelece a gratidão;
— pela caridade desperta o otimismo;
— pela humildade infunde estima;
— pela boa palavra desenvolve a fé;
— pela bondade apaga a cólera;
— pela imparcialidade revigora o senso de justiça;
— pela defesa dos fracos restitui a força do direito;
— pelo culto da maternidade exalta a beleza;
— pelo servir fundamenta a cooperação.


Num momento de desespero ou de desilusão, abatimento ou tristeza, são as expressões de amor que reconfortam, pelo aconchego de um carinho de mãe, pela expressão de uma palavra amiga, pela manifestação da compreensão alheia. Nada melhor para o reerguimento e restauração de forças do que o gesto amigo, a prova de confiança, a boa palavra, a infusão de otimismo.


Só o amor constrói, é alimentação espiritual. Seus veículos são o carinho, a confiança, a dedicação, o entendimento, a cooperação. Toda causa de alegria, superação de provas, auto­confiança, reside no amor que, como fonte detonadora de energia benéfica, nos permite adentrar pelas rotas do desenvolvimento, capacitar-nos às aquisições perenes, rumo aos cimos da espiritualidade.Amar é engrandecer-se.


C — O crescimento espiritual


As permutas de energia criadora no animal têm função prevalentemente orgânica. O homem primitivo, ainda animalizado, permanece no mesmo nível: é a partir do sexo, limitado à procriação, que inicia o crescimento espiritual, rumo a estágios em que o concurso dos sentidos far-se-á cada vez menos presente.


Da mesma maneira que a criança necessita do concurso dos sentidos para aprender a contar, antes de podê-lo fazer mentalmente, assim o homem se utiliza do sexo (na acepção comum do termo) para iniciar-se na subtracão à animalidade. No sexo (entendido agora na forma mais ampla) é que reside essa força que possibilita a ascensão humana — aquela força que, pela experiência, nos faz adquirir, como qualidades ativas: a energia, a fortaleza, o poder, a inteligência, a iniciativa, a sabedoria, etc... e como qualidades passivas: a ternura, a humildade, a delicadeza, a intuição, a dedicação, a afetuosidade... em reencarnações sucessivas, nas quais, periodicamente, vive experiências masculinas ou femininas.


Concomitantemente com a experiência, o sofrimento, o aprendizado, se lhe sublimam os anseios, se lhe enaltecem os objetivos. No terreno das manifestações afetivas, o desejo se lhe transforma em posse; a posse em simpatia e, em escala progressiva: em carinho, devotamento, renúncia, em que, cada vez mais, se desenvolve sua capacidade de amar, independentemente dos sentidos, até o sacrifício, o clímax do dar e do receber.


E nessa crescente capacidade de dar e consequente possibilidade de mais receber, consolidam-se suas conquistas, enobrecem-se seus predicados: a partir da assim chamada satisfação fugaz de amor, a tribo converte-se em família, a taba em lar, a força em direito, a floresta em lavoura, a barbárie em civilização, o grito em cântico, a alavanca em usina atômica, o homem em Cristo.


D — A utilização da energia sexual


A energia criadora, permutada pelo sexo, gera cargas magnéticas, que invadem todos os campas sensíveis da alma. Sua descarga indiscriminada conduz à exaustão e ao sofrimento; tal qual se dá com as nuvens inanimadas que, após terem-se revestido de cargas opostas, incapazes que são de controlar as manifestações oriundas de suas aproximações, entregam-se à descarga violenta de suas energias acumuladas e, na explosão do raio que se forma, com o relampaguear que ilumina apenas por um instante, só deixam atrás de si rastros de tristeza e desolação.


A energia criadora é força que alimenta e constrói o cérebro, clareia a mente, favorece a vida psíquica. Por isso precisa ser gasta, parte para a continuação da vida, parte para o engrandecimento de nós mesmos. Não pode ser retida; não se pode acumulá-la. Seria o mesmo que reter vapor em uma panela de pressão sem válvula de escape: causam-se os mais vastos e frequentes distúrbios nervosos, que conduzem ao ciúme, ao despeito, à rebelião, à loucura. Não se pode despendê-la nos abusos da prática sexual, porque se enfraquece o cérebro, afeta-se a memória, retarda-se o raciocínio, destroem-se elementos preciosos da vida psíquica, responsáveis pela ligação da terra com o plano superior.


Deter-se nas malhas do instinto, com desprezo dos demais departamentos de realização espiritual, é rumar para situações enfermiças, de retardamento e imbecilidade, pelo esgotamento das forças sexuais que alimentam as células cerebrais. Há que conduzi-las para todas as necessidades, pelo abandono da ociosidade, pelo trabalho em benefício do meio que nos circunda, para o desenvolvimento da mente, do psiquismo e da realidade espiritual. O bom uso purifica as emoções e os pensamentos.Nesse condicionamento à prática do bem, ao dar para obter, condiciona-se sua liberdade. No preceito de não fazer aos outros o que não se quer que os outros nos façam, está a impossibilidade de entregar-se à liberdade incondicionada, à permissividade total, em complacência irrestrita, num regime de relações inconscientes, para as permutas de energia sexual. Surge porém a necessidade de dobrar-se aos imperativos da responsabilidade, às exigências da disciplina, aos ditames da renúncia: não por normas rigoristas de virtudes artificiais; mas pelo esclarecimento, pela educação, pela compreensão do estágio de cada um, pela dilatação do entendimento, pelas melhores energias do cérebro, e com os melhores sentimentos do coração; entendendo que a incapacidade de disciplina e renúncia exige orientação, socorro para a sustentação, atitudes de médico e orientador, no socorro às necessidades, onde quer que a incapacidade se manifeste.


Rino Curti



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