Reforma Íntima - A Noção


Noção importante, dentro do Espiritismo, é a da REFORMA ÍNTIMA. Na sua essência, ela significa comportamento segundo a Doutrina, o que não quer dizer, evidentemente, um comportamento perfeitamente determinado por padrões típicos de atitudes, idênticos para todos.


O homem está sujeito à evolução e, por ela, apresenta graus de desenvolvimento distintos, de um para outro. A responsabilidade é relativa ao estágio evolutivo, e cada qual é exigido na medida de suas possibilidades. "Muito será pedido a quem muito foi dado";"Ninguém é posto a suportar mais do que suas forças o permitem".


Agora procuraremos esclarecer que a noção de reforma íntima é relativa ao grau evolutivo de cada um e que sua realização não galardo a ninguém fora do merecimento, não transforma quem quer que seja em sábio ou anjo, só por si mesma. Mas o reajusta dentro de suas possibilidades, reorganizando-lhe a caminhada para a ascensão.


A — A evolução do homem


O Espiritismo, como ciência dos fenômenos espíritas, revela a existência do mundo dos espíritos e seu relacionamento com o nosso, mostrando-nos definitivamente que espírito e matéria obedecem às leis naturais que podemos estudar de forma teórico-experimental.Dessa forma o Espiritismo constitui-se na ciência que estuda as leis que governam o espírito. Estabelece, como princípios fundamentais, as leis da evolução e da reencarnação, segundo os quais o homem passa a desenvolver-se alternadamente nos dois planos, subordinado às leis do aprendizado e da renovação.


A passagem do reino animal para o reino hominal caracteriza-se pela aquisição da palavra, do pensamento contínuo, da razão, do livre-arbítrio e pela iniciação da vida moral, que se constitui no afrouxamento do domínio dos instintos e no desabrochar dos sentimentos.


O homem, compelido a decidir por si mesmo, passa a ser o construtor do seu destino no âmbito de suas limitações, sem que lhe falte a orientação do Plano Superior. Pouco a pouco desenvolve faculdades, recursos mentais e físicos, passando pelas diversas fases do desenvolvimento por nós conhecidas, limitadamente à faixa que separa o selvagem primitivo, existente em nossos dias, e o homem civilizado.


A evolução feita a partir do início das reencarnações até o estágio atual do homem, tal qual somos, exigiu, segundo André Luiz um espaço de tempo de 250.000 anos. O término do ciclo das reencarnações, na fase humana, também segundo André Luiz, dar-se-á quando o homem tenha automatizado o comportamento evangélico. Após isso ingressará em outro plano, para nós atualmente desconhecido.


B -Estágios evolutivos


Fato consumado, portanto, é a constatação de que os diferentes níveis culturais qualificáveis entre o hotentote e o construtor de computadores, correspondem a diferentes níveis evolutivos; a diferentes estágios de progresso dos espíritos, advindos de períodos de experiência distintos, e a faculdades de expansão desigual. Esse crescimento está condicionado ao desenvolvimento de aptidões e virtudes, de realização lenta, gradativa, dependente do esforço que nela empreguemos, subordinada às leis do trabalho e do aprendizado.


Ninguém pode subtrair-se aos imperativos dessas leis, quer se situe no plano espiritual, quer esteja no plano material. Nem a morte soluciona problemas, nem mesmo nos altera a situação íntima. Permanecemos o que somos em qualquer circunstância e nada do que possamos alcançar sê-lo-á sem que se constitua em conquista pessoal. A própria revelação é gradativa, obedece aos ditames dessas leis e só se realiza uma vez, superadas as limitações que a impedem de se efetuar.


O progresso é compulsório. O espírito integrado na lei, comprometido nas realizações do bem, segue-lhe o curso normal, enfrenta-lhe as dificuldades naturais e fica submetido tão-somente aos percalços da caminhada. O espírito revoltado, envolvido nos processos comprometedores da ordem e da harmonia, tem sua ação cerceada compulsoriamente, estaciona, e só retoma a ascensão após ter esgotado as influências de desordem de que se fez responsável após ter-se reconciliado com a lei.


Nos procedimentos contrários ao bem comum, surge a reação contra a desordem provocada: o remorso, o arrependimento, as acusações dos que se sentiram prejudicados, atuam no sentido de isolar a mente conturbada, a fim de que não prossiga na sua ação perturbadora, à semelhança de um circuito elétrico que dispõe de dispositivos interruptores da ação destruidora de um curto circuito, automaticamente, quando ela acontece.


Nesse estado de conturbação, diz André Luiz, a mente "recorda apenas os acontecimentos que se refiram aos seus padecimentos morais, com absoluto olvido dos outros... num monoideísmo que a isola nas recordações ou emoções... E dessa forma, até que se esgotem os motivos que alimentam tais estados, vive o espírito torturado pelas imagens frutos de suas culpas".


São muitas as causas de desajuste que podem nos envolver sem que possamos identificar todas, sem que a elas saibamos sempre nos subtrair, por ignorância, por desinformação ou por erros de educação. Duas coisas há, portanto, a distinguir: nosso estágio evolutivo e nosso ajuste dentro dele.


Nosso estágio evolutivo nos situa, uns mais adiantados, outros mais atrasados, dentro de uma escala de avaliação compatível com aquela estabelecida por Kardec. A todos é reservado idêntico destino, que alcançaremos em função do esforço que empreguemos e segundo o merecimento que aufiramos. Temos o mesmo destino perante a eternidade, mas em termos atuais, somos diferentes, uns melhores, outros piores. Todos nos relacionamos, entretanto.


Dependemos uns dos outros e nosso evoluir processa-se em função do auxílio e do entrosamento mútuos, quais peças com determinada função, com tarefas a desenvolver, no meio que nos circunda. É por essas tarefas que progredimos. É do perfeito ajuste de cada um, na função que lhe é destinada, que dependem a felicidade e o sucesso, individuais ou coletivos.


Impõe-se não nos desajustemos no concerto das relações que nos unem uns aos outros. Somos diferentes; não temos o mesmo grau de evolução, não podemos dar todos na mesma medida, temos responsabilidades relacionadas a uma participação que não é a mesma; só podemos dar pelo que nossa capacidade permite, segundo nossas forças. Porém, o que se exige, é que, como elementos necessários e indispensáveis de um todo, saibamos desempenhar o nosso papel. A cada um é exigido segundo suas possibilidades.— Muito será pedido a quem muito foi dado.


O que se requer é que ninguém se torne causador de desarmonia: no plano material — fugindo aos compromissos; no plano moral — comprometendo a paz, por julgar, por nos tornarmos objeto de escândalo, por sermos maledicentes, buscando relevar mazelas e defeitos de nossos semelhantes, etc... O que se exige é que colaboremos com nosso semelhante, praticando o amor, a caridade, a fraternidade.


Dentro da sociedade, todos somos parcela útil, indispensável, imprescindível, que não pode perder-se, que não pode ser posta à margem como indesejável, prejudicial, como elemento nocivo. Por isso é mister aceitar as situações e as responsabilidades sem revolta: saber tomar-nos de autoridade para com quem nos segue, porque orientar é caridade; saber tomar-nos de respeito e acatamento para quem nos precede, porque aprender é uma necessidade, progredir é uma imposição da vida. Saber distinguir o lugar que nos compete e equilibrarmo-nos nele, embora todos, menores e maiores, tenhamos diante de nós o infinito.


Tal qual precisam ser as peças de um automóvel. É necessária a existência do motor, tanto quanto a do parafuso. Este necessita exercer uma força de coesão, de ligação, de segurança; o que se lhe pede é perfeição, mas a perfeição que lhe cabe como parafuso. Aquele tem a função de impulsionar, propulsar. Também se lhe pede perfeição, mas a perfeição que lhe diz respeito como motor — uma perfeição muito maior, como peça de maior importância, embora o conjunto não possa dispensar nenhum dos dois.


— Somos lavrador: sejamos lavrador perfeito;
— Somos administrador: sejamos administrador perfeito;
— Somos filho: sejamos filho perfeito;
— Somos pai: sejamos pai perfeito.
— Como homem, amemos nosso semelhante, a criação, Deus.


E para que assim possamos nos tornar, temos que combater em nós:


— o egoísmo, para não sofrermos as consequências do isolamento;
— o vício, para não cairmos no desequilíbrio;
— a agressividade, para não sermos vítimas da violência;
— o ciúme, para não sermos presa do desespero;
— a indisciplina, para não sermos atingidos pela desordem;
— a preguiça, para não provocarmos o aguilhoar das dores que nos obriguem ao progresso:
— a inveja, para não sentirmos as consequências do despeito;
— a leviandade, para não mergulharmos na insensatez;
— a indiferença, para não nos tornarmos presa do desânimo.


E, ao mesmo tempo, cultivar:



— a colaboração;
— a verdade, para não nos envolvermos nas malhas do desengano;
— a caridade;
— o amor ao próximo;
— o sentimento de fraternidade.


Naquilo que se exige de nós, exortava Jesus: — Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito. Para não sofrermos é necessário eliminar os desajustes relativos à nossa situação. Não podemos alojar a mentira, a desonestidade, a prevaricação, a sensualidade, a gula, enfim todos os deslizes que provocam nosso estacionar.


É a eliminação desses desajustes, de que possamos ser portadores, que denominamos de reforma íntima. A reforma íntima, de que as Escolas da F.E.E.S.P. se tornam promotoras, é esta de nos propiciar o conhecimento doutrinário, corrigindo nossas falsas noções, preconceitos, falhas de educação, arranhões de caráter, hábitos indesejáveis, a fim de que, com ele harmonizados, possamos nos constituir nesse homem íntegro, equilibrado, exemplo e força de uma sociedade bem constituída, fator de ordem, progresso e harmonia.O que as Escolas se propõem é isto. Esforçar-se-ão para que, dentro dos preceitos doutrinários, aprendamos a conhecer, descobrir a nós mesmos e indicar-nos os caminhos do reajuste. Não irão transformar-nos de homem comum em sábio, nos domínios da ciência e da filosofia; nem em anjo, em um virtuoso excelso, segundo os preceitos da moral e da religião. Estas são conquistas que não podemos fazer a não ser à custa de intuito, trabalho e esforço e ao longo de ainda muitas reencarnações, com a aplicação incansável do estudar e servir.


Ela porém nos auxiliará a reencontrar a nossa posição de homens equilibrados, ajustados, capazes de reencetar a própria caminhada evolutiva com consciência, firmeza e confiança, certos de que quem nos criou está também a nos guiar.


Rino Curti

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