Cont... Reforma Íntima - A Revelação


Pontos fundamentais de divergências entre o Espiritismo e as outras Religiões cristãs são os relativos às noções de Revelação e da personalidade do Cristo. Tais Religiões entendem a Revelação como manifestação de Deus para com os homens: portanto, conteúdo de verdades absolutas. E consideram Jesus ele próprio Deus, na pessoa de seu filho, que ter-se-ia feito homem a fim de redimir a humanidade do pecado original.


Para o Espiritismo as noções se modificam. A Revelação existe, mas não como manifestação de Deus a comunicar-se com os homens. Deus é o princípio das causas que atua sobre os dois princípios — o material e o espiritual — por leis naturais, leis estas que os espíritos devem determinar e conhecer para aplicar nas tarefas da co-criação, pelas quais, instados a participar nas obras da criação, evoluem.É da lei que os espíritos progridam pelas realizações da co-criação, segundo desígnios a nós imperscrutáveis. Mutuamente apoiados. Os maiores valendo-se dos menores para afirmar-se; os menores prestando serviço aos maiores e recolhendo deles, a seu turno, preciosa cooperação para crescerem.


Para o homem, tudo procede como se ele estivera dentro de um plano, em que ele figura qual partícipe, ficando-lhe resguardados o exercício do livre-arbítrio e a necessidade de realização própria. Assim sendo, recebe ele, do Plano Maior, pela Revelação, as diretrizes em forma de princípios básicos ou fundamentais, cabendo-lhe todavia as iniciativas e a elaboração dos meios pelos quais há de se conduzir. Progressivamente. Recebendo nova lição após o aprendizado e o esgotamento de possibilidades contidas na anterior.


Enfim, a Revelação é progressiva. Cabe ao homem, entretanto, dentro desses princípios, proceder à determinação das leis que o governam, para conduzir-se por elas, a fim de evoluir. E, nessa elaboração, deve ele proceder com base nos fatos, pela observação e experiência — metodicamente — com a aplicação do método teórico-experimental, o método já largamente usado pelas ciências. Esta é a grande revelação do Espiritismo: as leis que governam o princípio espiritual são cognoscíveis com o mesmo método que a Ciência utiliza para a determinação das leis que regem o princípio material. Ele próprio se intitula ciência das leis que regem o princípio espiritual. Por isso refuta as concepções das outras Religiões: porque elaboradas numa Revelação pretensamente divina e definitiva — completa — e construídas racionalmente à margem dos fatos e das observações, cada vez mais reveladoras de novos dados, com o progredir.


Veremos agora como se estruturam as novas concepções e como, por elas, Ciência e Religião se compatibilizam, irmanando-se quais ferramentas dignas e indispensáveis à realização do progresso e à consolidação das conquistas que hão de caracterizar o homem do futuro.


A — Jesus


A concepção de que Jesus é Deus está elaborada sobre as noções bíblicas de Adão, tido como primeiro homem, e do pecado original, que ele teria cometido. Mais ainda: sobre a noção aristotélica de substância que o dogmatismo consolidou. Diz-se que Adão, ao cometer o pecado original, ofendera a Deus. O grau de ofensa, sendo determinado pela grandeza do ofendido, resultaria infinito. O homem, ser de possibilidades limitadas, não poderia repará-la. Deus, entretanto, na sua infinita misericórdia, ter-se-ia feito homem na pessoa de seu filho — Jesus — visto que, como Deus, só Ele poderia proporcionar reparo no grau requerido e, com isso, resgatar o homem do pecado original, reabrindo-lhe as possibilidades de salvação.


Não seria, entretanto, pelas vias comuns a todos os homens que Deus ter-se-ia feito homem. E, nisto, intervém a noção aristotélica de substância: assim como de uma galinha só poderá resultar outra, de um cavalo outro também, dado que ambos são constituídos de substâncias ou formas distintas, permanentes, irredutíveis entre si (noção ausente portanto da idéia de evolução, segundo a qual o princípio que anima um ser progride e anima ao longo de sua evolução espécies diferentes), assim do homem só poderá surgir um homem, jamais um Deus. Daí o dogma do engravidamento de Maria pelo Espírito Santo, ele também Deus: a terceira pessoa.


Com a noção de evolução, tais concepções caem por terra. Jesus é um espírito de grande hierarquia. É o condutor desta humanidade na sua marcha evolutiva, tendo recebido o planeta no instante de sua formação. Traçou-íhe as leis físicas e morais, em obediência às leis de Deus; conduziu-o no seu desenvolvimento desde os primórdios até os dias atuais e sua reencarnação teve por fim trazer o Evangelho, fruto de sua elaboração: a norma pela qual o homem deve orientar, neste planeta, o seu comportamento.


Com base nos fatos não há nada, até o momento, que evidencie qualquer exceção no processo existente da reencarnação e, portanto, nada que justifique não tenha ele nascido de José e Maria, de forma natural. Todos os espíritos, maiores ou menores, vêm a este mundo pelos canais normais e comuns da reencarnação.


B — A formação do conhecimento


Para o Espiritismo, a forma que sustenta os corpos é o espírito que evolui, segundo André Luiz, através dos reinos mineral, vegetal, animal e hominal, com origens e fins a nós desconhecidos.O ser, ao passar da fase animal para a fase hominal, adquire o pensamento contínuo, a razão, o livre-arbítrio, pelos quais é despertado a conduzir-se por si mesmo. Surgido da animalidade e impelido a aceitar os princípios de renovação e progresso, começa a sentir o amor pelo apego à própria prole; passa a instituir a propriedade e traça para si próprio determinadas regras de conduta, para que não imponha aos semelhantes ofensas e prejuízos que não deseja receber.


Inicia-se sua evolução do ponto de vista moral, em que é amparado e guiado pelo Plano Superior. Diz André Luiz: "Pela troca dos pensamentos de cultura e beleza, em dinâmica expansão, os grandes princípios da Religião e da Ciência, da Virtude e da Educação, da Indústria e da Arte descem das Esferas Sublimes e impressionam a mente do homem". Nas primeiras manifestações de mediunidade, os homens melhores assimilam, por intuição, as correntes mentais dos espíritos mais avançados, gerando trabalho e progresso nos meandros do bem.


As concepções que se lhe formam, correspondem ao seu poder conceptual, limitado às experiências que vive. A vida nos dois planos, as manifestações mediúnicas, o sono, o sonho, as inspirações que recebe do alto, fixam-lhe, desde os primórdios, a idéia de sobrevivência. Incapaz que é de conceber força que não seja exercida por animal ou homem, atribui a causa dos fenômenos aos espíritos que, com a morte, adquiririam poderes sobrenaturais.


Dá-se conta de que há circunstâncias favoráveis e outras desfavoráveis aos acontecimentos, mas não se apercebe de que ele pode nelas atuar. Acredita que os mortos podem fazê-lo. Daí os cultos e rituais, pelos quais pretende influenciá-los a operarem em seu benefício. É o pressuposto das crenças caracterizadas pelo Totemismo. Pouco a pouco passa a conceber o mundo entremeado por uma força — o maná — pela qual os seres podem influenciar-se mutuamente, podendo dar-se aos objetos, forças e qualidades. Sob esta concepção desenvolve a magia e a feitiçaria, pelas quais supõe poder conferir poder mágico aos objetos, afastar a desgraça ou produzir felicidade, dando origem a todas as espécies de superstições, amuletos, feitiços e talismãs. É a evolução do Totemismo para o Animismo.


Enfim surgem duas atitudes: uma teórica, que pretende explicar ou dar razão de ser aos acontecimentos; outra prática, que pretende, em função do conhecimento teórico, fornecer meios práticos para melhorar o viver. É nessa fase que as "Inteligências Superiores incentivam o progresso da agricultura, do pastoreio, das indústrias, das artes e da Mitologia, a fim de instaurar a tarefa religiosa que viria ao encontro das civilizações, plena de inspiração e disciplina, patrocinando a orientação do corpo espiritual em seu necessário refinamento". É o Politeísmo.


C — O descobrimento das leis naturais


As concepções teóricas se desenvolvem. Pouco a pouco o homem começa a perceber que na Ciência, na Técnica, na Arte, os fatos se apresentam cada vez mais sujeitos a leis naturais do que como resultado de seus rituais. Começa-se a estabelecer aos poucos que, em lugar dos rituais e cultos, mais valem a prática da bondade, da retidão, da sinceridade, da ciência, do valor, da piedade; que os males se assentam na prática dos vícios, na ignorância, no pessimismo, na avareza, no erro, na inveja, na malícia, na cólera, na maldade, na calúnia, na difamação, no roubo, na contratação de dívidas.


As concepções acerca do mundo e das coisas, sempre alimentadas pelo Alto que guia o homem no seu desenvolvimento, tendem a unificar-se e a entender o princípio da vida como assente em uma causa primordial. As várias Religiões efetuam conquistas parciais. O Bramanismo instaura as noções de reencarnação e Carma; o Budismo desenvolve sobre elas a idéia de salvação para todos; o Confucionismo fixa regras de bem viver e de bom comportamento; o Mazdeísmo distingue entre o bem e o mal; o Judaísmo estabelecea crença dó Deus único, deus de justiça, pela qual aprofunda o conhecimento das leis que regem o mundo e que a todos determina se viva segundo princípios morais.


D — As três revelações


Certamente a idéia de Deus único e de vida regida por leis morais são idéias que amadureceram ao longo do tempo, não sendo lícito estabelecer-lhes um princípio. Entretanto, por constituir-se o decálogo num marco definitivo na sua maturação e sendo ele atribuído à Revelação feita a Moisés no monte Sinai, como promulgação da Lei e da verdadeira fé, é a isto que se dá o nome de primeira revelação; a primeira revelação das leis de Deus.


Com Jesus estabelece-se outro marco nesta concepção relativa às leis naturais. Revela ele o reino dos céus, no qual se desenvolve a verdadeira vida e as penas e recompensas que aguardam o homem depois da morte. Revela ainda que Deus é uma vontade amante, que ama sua Criação como um pai ama a seus filhos, infinitamente misericordioso, em quem devemos confiar e que governa por leis que são leis de amor. Que todos, por isso, somos irmãos, devemos nos amar fraternalmente, elegendo a caridade a virtude essencial para a salvação.


Ele próprio estabelece o princípio da revelação progressiva, ao afirmar que mais tarde enviaria o Consolador, o Espírito de Verdade, para o esclarecimento de outras coisas que Ele não pudera dizer, por não estarem ao alcance dos homens então. É a segunda revelação da lei de Deus. Com o Espiritismo estabelece-se novo marco fundamental. Fixa sobre bases definitivas, baseado nos fatos, a existência do espírito e do mundo espiritual. Determina as leis da evolução e da reencarnação e estabelece de maneira definitiva que as leis relativas ao espírito se determinam da mesma forma pela qual a Ciência determina as leis que governam o princípio material.


Ele próprio se constitui na Ciência que tem este objetivo. É a terceira revelação acerca das leis de Deus. Como consequência, Ciência e Religião se tornam dois aspectos do conhecimento: pela primeira, determinam-se as leis do mundo material; pela segunda, as leis do mundo espiritual. E, nesse procedimento teórico-experimental, encontram ambas o elo que as une, o elemento que desfaz a incompatibilidade tida como existente: a Ciência, pela consideração do elemento espiritual; a religião, pela consideração das leis da matéria, instituindo a fé raciocinada.


Diz Kardec textualmente em: "O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente: a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, falta apoio e comprovação." Da maneira em que a Doutrina se constituiu, passou a ter, como a Ciência, caráter evolutivo, não podendo jamais ser ultrapassada porque é capaz de acompanhar toda e qualquer modificação decorrente de novas descobertas.


Acerca dessa compatibilidade entre a Doutrina e a Ciência, afirma Kardec: "A Ciência tem por missão descobrir as leis da natureza. Ora, sendo essas leis obra de Deus, não podem ser contrárias a religiões que se baseiam na Verdade. É, ao demais, trabalho inútil, porquanto nem todos os anátemas do mundo seriam capazes de obstar a que a Ciência avance e a que a verdade abra caminho. Se a Religião se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha.",


Rino Curti


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